Mais do que um up no visual, a cirurgia plástica costuma ser uma injeção de ânimo na autoestima e autoconfiança de quem recorre a ela. E, entre todas as possibilidades, a lipoaspiração continua soberana no topo das preferências. Ela é responsável por mais do que o dobro do número de procedimentos da segunda colocada, que é o implante mamário. Esse status justifica o fato de ser tão falada, inclusive nos eventuais insucessos. Mas isso não quer dizer que seja mais perigosa que as demais. Apenas que, por ser de longe a cirurgia mais realizada, obviamente também é a que pode apresentar mais episódios de complicações. Essa popularidade, observa o cirurgião plástico Vicente Scopel, explica igualmente outra peculiaridade. A seu ver, a lipoaspiração é subestimada, tanto por médicos quanto por pacientes. Os primeiros, quando não cirurgiões plásticos, executam o procedimento sem estarem aptos. Os segundos, por se submeterem a profissionais despreparados. “Em cirurgia, não só plástica, é de extrema necessidade que existam totais condições de segurança e técnica para que não ocorram complicações e, mesmo assim, ainda há riscos”, esclarece. No Brasil, apesar dos esforços da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), não existe um controle rigoroso de quem pode executar essa cirurgia. Assim, o nível de ocorrências indesejadas é muito elevado em relação a outros países, pois o paciente fica sujeito a um procedimento que oferece riscos e exige especialização e técnica habilidosa, sendo realizado por profissionais que não são capacitados para isso.

O que é necessário:

■ Para a realização de uma lipoaspiração, explica Scopel, é imprescindível um ambiente hospitalar ou clínica privada que ofereça todas as condições de segurança necessárias: equipe completa, com anestesista, enfermeira, técnicos de enfermagem e cirurgião plástico habilitado pela SBCP com seu auxiliar, material específico e sala de cirurgia equipada, além de sala de recuperação e uma UTI com disponibilidade para receber o paciente em caso de complicação, ou seja, local e pessoal realmente preparados.

■ Hoje, o único profissional médico capacitado para executar uma lipoaspiração é o cirurgião plástico. O paciente deve procurar saber junto ao órgão regulador no País, que é a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, se o profissional a quem pretende se submeter faz parte da sociedade. Essa informação é disponibilizada no site da entidade. Além disso, é aconselhável buscar referências do cirurgião plástico com pacientes e outros profissionais da área de saúde, acerca da reputação de seu trabalho.

Indicação

O primeiro passo para quem pensa em fazer uma lipoaspiração é agendar uma consulta com o cirurgião plástico. No consultório o paciente tira dúvidas, pede informações, fala dos seus medos e angústias. O médico explica o procedimento, toma conhecimento dos desejos do paciente e o examina, determinando se o procedimento é indicado e quais áreas devem ser tratadas através da lipoaspiração. O maior erro que ocorre, conta Scopel, é de pessoas que estão acima do peso ideal, não fazem dieta nem exercício físico e buscam a lipo para mudar o corpo, com o objetivo de emagrecer. Mas ela não é nem nunca foi proposta para isso. “A lipoaspiração é excelente quando feita em pacientes que estão no seu peso ideal, há pelo menos seis meses, e tem áreas de gordura localizada, as lipodistrofias. Aí é soberana, não existe nada superior a ela. Agora, quem a busca para emagrecer, passando essa responsabilidade ao cirurgião, está fadado ao insucesso, à insatisfação, pois o resultado não vai atingir a expectativa. Nesses casos, cabe ao cirurgião ético dizer que naquele momento ela não se encontra no seu melhor para realizar o procedimento e ter seu melhor resultado.” Quando não é hora, o cirurgião encaminha à atividade física, nutricionista e programa uma cirurgia para o período apropriado. No caso de pessoas com problemas de saúde (hipertensão, diabetes, disfunções tireoidianas), estes devem estar sob controle. Já adolescentes precisam ser bem avaliados para verificar se o corpo está totalmente formado. Interessante, revela o especialista, que 15% a 20% dos pacientes de lipoaspiração hoje são homens. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica preconiza atualmente que, por segurança, não se reduza no procedimento mais do que 7% do volume corporal. A técnica, o resultado excelente, depende muito do médico responsável e bem treinado. Primeiro, pela avaliação inicial e pela indicação da cirurgia. E segundo, pela paciência e habilidade de esculpir na mesa cirúrgica. “É uma escultura corporal. As técnicas e equipamentos que surgem servem para facilitar o trabalho do médico, mas a essência continua a mesma: é uma cirurgia artesanal.”

(Matéria veiculada no Caderno Beleza, Jornal Gazeta do Sul, do dia 17 de dezembro de 2016)